ou não: trienal de pintura latino-americana
“Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores.
Muitos são os motivos para que se faça esta reflexão. A começar pelo momento de retomada da democracia que estamos vivendo, no plano das relações internas e externas do país. Esta reflexão que se segue, deve-se a abertura contínua que o Memorial vem criando através da Galeria Marta Traba, através de seus gestores e da figura de seu presidente atual, Fernando Leça. Creio que tais iniciativas só possam fazer sentido dentro de uma franca restauração do Memorial da América Latina e seu legado de integração como vêm ocorrendo. Faço apenas meu dever em argumentar a favor de tal abertura, através da reflexão que surge de um desafio proposto pelo espaço, durante a realização da mostra ut pictura diversitas.
Em 1978 foi feita a tentativa, defendida por Mário Pedrosa Roberto Pontual e Aracy Amaral, de se transformar a Bienal de São Paulo num espaço dedicado exclusivamente para a arte da América Latina. A maioria dos críticos e artistas envolvidos foi contra esta decisão. Inclusive Marta Traba. Sobre este fato me lembrava Francisco Alambert, crítico de arte e professor de História da FFLCH-USP, co-autor do livro (junto a Polyana Canhête) “Bienais de São Paulo – da era do Museu à era dos curadores”, no último final de semana. Isto seria mesmo um antagonismo já que se imporia a todo o histórico de buscas de integração e abertura para o livre trânsito internacional da arte latino-americana, uma asfixia em relação ao diálogo com os outros Continentes. Não se deve pensar nenhuma ação deste tipo para o fechamento, mas, para a ampliação do trânsito dos artistas do continente Americano, dentro e fora dele.
Evidentemente, a projeção de uma trienal de pintura latino-americana em São Paulo, jamais poderia pretender o mesmo intento, ou seja, de abranger o papel da Bienal Internacional de São Paulo, guardadas as devidas proporções e o respeito ao fato de que estamos lidando com apenas uma linguagem, neste caso, a da própria pintura. A função desta e de outros eventos que possam ser criados, para gêneros diferentes, deve existir como ação complementar ao que já existe, podendo contribuir de maneira mais ou menos crítica em relação ao panorama da diversidade e da democracia, da pintura e suas migrações enquanto fluxo de informação em linguagem, na medida em que o país e a humanidade possuem novas demandas, um crescimento populacional e a necessidade, então, da que se construa a história de modo dinâmico, para que se faça transformações mais imediatas e urgentes na nossa sociedade. Talvez a história não esteja mais nos veios da cultura apenas para exercer um papel passivo e sim para contribuir com as áreas do conhecimento no sentido de antecipar fatos e propor mudanças imediatas. A história que apenas conta a instituição do passado, contemplativamente, talvez esteja mesmo no fim. O paradigma da interação irá revertê-la, supostamente, para o que possamos historiografia dinâmica.
As coisas que motivam a criação da trienal de pintura figuram em torno de questões chave para a integração da arte brasileira com a arte do Continente americano. Implicam numa conduta ativa de transformação. Demolem a cultura da crítica que, ao mesmo tempo em que critica, permanece de braços cruzados. Esta postura está ruindo.
Ressaltar que a arte brasileira não ocupa seu devido lugar na história geral da arte é incorrer naquilo que perpassa também a história dos nossos países vizinhos com a exceção de que talvez eles tenham ocupado um pouco mais do que nós a cena da Modernidade.
A presença do Brasil é velada no campo da filosofia contemporânea, dado o fato de que muitos dos pensadores, que são mundialmente admirados, como Roger Bastide, Lévi-Strauss, Edgar Morin, para ficar apenas em três exemplos, foram fortemente influenciados pela cultura brasileira, mas, nós os consumimos, esquecendo deste fator. Ouso dizer que sem a sua vivência do Brasil, tanto a presença quanto a autenticidade do pensamento destas personalidades teria um papel menor do que eles exercem no presente.
O mesmo ocorre com figuras da arte brasileira como Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Victor Meireles de Lima e Pedro Américo se quisermos ir mais lá atrás. Mas tratamos a questão quase sempre de maneira anedótica. Portinari é considerado pintor menor porque foi ligado à regimes de esquerda e curiosamente utilizado como ícone oficial da arte social brasileira pela linha política oposta a das posições que ele ocupou. Foi deputado federal e destituído. Oscar Niemeyer é freqüentemente mais falado pela sua anti-funcionalidade como arquiteto do que pensado como inventor de espaços voltados para o grande fluxo e a liberdade de ação que convencionam-se ao tempo de hoje. Mas ainda estamos ligados à arquitetura da subdivisão, do compartimento.
Vitor Meireles e Pedro Américo estão devidamente soterrados: quantos se lembram da atuação de Pedro Américo como deputado federal e primeiro autor das primeiras leis em defesa da arte brasileira? Quantos sabem que ele, mesmo acusado de plagiário, escreveu uma série de ensaios de estética, inclusive o intitulado “discurso contra o plágio”. Mal sabemos que ele pintou o Grito do Ipiranga.
E o que aparece na pintura de Adriana Varejão é o esquartejamento da própria pintura e seu decurso histórico na arte brasileira. Ver estes trabalhos faz sentir uma forte tensão entre o conceito e a repugnância total a ele. Faz ver reflexos de uma cultura que ao inventa a vida com a morte, a beleza com o sangramento da atrocidade, uma construção que se faz, necessariamente, a partir da destruição.Penso então no que ocorre, cada vez que se importa um novo conceito para dentro do universo cultural da arte brasileira, que se dá vida a novos esquartejamentos: os mesmos que ocorreram na passagem da Monarquia para a República e que ocorrem hoje, generalizadamente, entre as sucessões políticas, de classe social e todas as outras sucessões, até mesmo no campo da vida íntima de cada um de nós. E penso também que estes esquartejamentos poderiam ser minimizados ou evitados se aprendêssemos a concluir ações sociais amplas e não tratá-las e nem deixá-las para lá, como promessas ou mais um descumprimento de promessas. Esta fé é falsa, ou melhor, é a fé dualista entre o falso e verdadeiro com a qual nos acostumamos a viver.
Evidente que isto que coloco, não é falar de qualquer tipo de auto-suficiência, pois a exemplo do Continente europeu e o que ocorreu com a cultura da união européia, a união re-significa o papel de toda uma comunidade que se mantém plural para os efeitos da era global. Mas é falar sim do respeito ao que representa a América como fenômeno de renovação da cultura Ocidental e da necessidade de sermos mais atentos e éticos em relação ao papel da nossa cultura. Para quê, para quem? No mínimo para não vivermos mais a aceitação passiva das nossas fronteiras como linhas de esquartejamento.
Provavelmente, porque a pintura ainda possui um vagar, uma fração intrínseca do ambiente onde ela é produzida e porque ela impregna-se destes códigos locais, com uma ampla e mais complexa veracidade de informações do antropos deste habitat do que as novas mídias se as pensarmos no seu campo puramente descritivo e de difusão. Ninguém nega a interação, mas há que se ver suas limitações tanto quanto se aponta a limitação dos meios tradicionais da expressão e, sempre, buscando a integração ao invés do niilismo que anula a existência uma realidade em função do surgimento de outra.
Este documento amplo que ainda é a pintura, anímico e factual, à feita de toda a multiplicidade de novas linguagens visuais que surgem, é um veículo estratégico e dinâmico para que se reúna e estude os mecanismos de atração e difusão entre as culturas do Continente. A mídia da pintura ainda é o elemento de permanência direta da razão, do gesto, da linguagem, do embasamento das transcrições visuais da América Latina.
A pintura se porta como um pedaço da matéria, um arremesso do todo, do que se passa na vida dos indivíduos de um lugar, fragmento do lugar em que se origina e este corpo de anatomia própria e que ao migrar para outro lugar, reporta-se como o espaço-tempo de um lugar para outro. Pode-se até dizer que a pintura é, em si, a moção literal do espaço e do tempo. Que ela não está desvencilhada da fotografia, do cinema, do vídeo. Aliás, ela é essencialmente a matriz da visualidade e do aparecimento destas mídias.
Uma mídia altamente material e subjetiva, ou melhor, que do ponto de vista filosófico, atua como corpo simultâneo da subjetividade e da objetividade ao mesmo tempo. Paralisado e metafisicamente, o espaço que é desvelado pela pintura é parte intrínseca da cultura onde nasce. É a parte que contém o todo.
A Trienal de pintura pontuará uma ação maior no cuidado com o mínimo, ou com os fragmentos onde o todo está engendrado, se quisermos reconhecer os reflexos da ciência e da filosofia no senso das conquistas contemporâneas e seu modo de traduzir a realidade. Poderá adensar a preocupação com a história e suas minúcias.
Outras mortes estão prenunciadas na contemporaneidade, como da história e da própria arte, por exemplo.
Curiosamente, a pintura brasileira ainda está por ser descoberta e é natural que ela aparecerá pela via de escape da crise do Velho Mundo.
Contradições como essa merecem estudos mais aprofundados e digo isso porque para simplificar o assunto que é uma especificidade da linguagem da pintura, que se vista universalmente, poderia modificar o plano da análise crítica da arte mundial.
Relendo alguns ensaios sobre a América Latina ou da crítica brasileira sobre a falta de inserção do Brasil na cena da América Latina fica a seguinte pergunta: será que somos assim tão distantes, tão pouco integrados? Ou será diferente? Será que, ao invés disso, não somos, simplesmente, preparados à exmo para nos vermos como um continente desintegrado?
Damián Bayón é que aponta para o fato de haver uma América Latina que não só não é conhecida pelo mundo como num fenômeno mais grave, não conhece a si própria. Em seu livro “Aventura plástica de hispanoamérica”, o Brasil está fora da reflexão, mas não deixa de ser oportuno dizer que se o Brasil sem integração com a América Latina não se traduz por uma América Latina que já está integrada. Ao contrário, nas palavras de Bayón percebe-se a imensidão deste desafio. A inserção do Muralismo Mexicano não foi suficiente como inserção planetária, nem para nós nem para os países de língua hispânica.
Se não podemos figurar no panorama da história da Modernidade, ainda, é certo que somos o assunto essencial da humanidade, enquanto descoberta há mais de cinco séculos. Mas é possível reconhecer que de um século para outro vimos fazendo avanços na história. E levo isso para o lado menos competitivo da questão.
O corpo ainda é o estado de permanência essencial das relações humanas mesmo na era da desmaterialização da cultura. Pois a desmaterialização também possui materialidade. A pintura brasileira é latino-americana e global. O interesse crescente da comunidade internacional e seus Museus, pelos movimentos Concreto e Neo-Concreto é uma prova disso.
E o desafio da pintura brasileira é exatamente o de circular pelo Continente atraindo a pintura do Continente para cá. Isto é, se quisermos de fato a integração.



