Este blog é dedicado ao encontro. Às coisas díspares e semelhantes evidentemente como as diversas e divergentes. Reto e curvo. Linear. Cartesiano e caótico, geométrico e expansivo. Resiliência é o estado de remorfose das coisas, quando da ruptura renascem as coisas para seu estado original de matéria e alma,e, neste caso, resiliência poética será nosso assunto. Uma vez ou outra tudo isso poderá ser nada disso.

domingo, 19 de agosto de 2007

ut pictura diversitas


Pintura Contemporânea ou ut pictura diversitas

“... o caminho dos pintores, reto e curvo”.
Heráclito

“A fé é o instinto da acção”.
Fernando Pessoa

...“ut pictura poesis”...
Horácio


A arte não é nem aquilo que se consagrou nem aqueles que estão por se consagrar. Pelo simples motivo de que quando não se consagra aquele que anda do presente para o futuro, o sentido do passado deixa de existir.

A mostra ut pictura diversitas caracteriza-se pelo desejo de reunir artistas que fazem pintura, cada qual com a matéria específica do conhecimento desta linguagem e suas respectivas variações. O encontro destes 20 artistas não trata de uma visão linear e definida pela separação de movimentos, ao contrário, é uma proposta de aproximação dos interesses de um grupo de artistas que entre gerações distintas manifesta-se através da pintura.

As chances de ampliação e concretização desse diálogo extrapolam o horizonte da visualidade e ampliam-se através do papel que este espaço – a Galeria Marta Traba - pode exercer, possibilitando a reflexão que faremos sobre realizar uma Bienal de Pintura Latino-americana. Esta liberdade se deve, sem dúvida, ao papel de abertura do Memorial da América Latina e o que ele representa como legado de integração na figura de seu presidente atual, Fernando Leça, que tem se disposto a nos dar espaço e motivação para agir. Divido a missão com quem tiver interesse.

Problemas e soluções são uma lei de compensação. E o conflito de gerações, linguagens e interesses, passa também pelos dogmas recentes como da ruptura, happening, anti-formalismo, predominância do conceitual, aparecimento da arte-tecnologia e arte-assistencialismo. Artistas vivem separados por menos de uma década de atuação, entre diferentes e possíveis caminhos da arte contemporânea. Não fosse isso, talvez, a “metáfora da morte da pintura” poderia nos ter enriquecido muito mais quando ocorreu.

Isto é um exemplo do que temos à buscar: a superação das compartimentações. O mesmo vale para a crítica, os critérios culturais e curatoriais, o gerenciamento das instituições e critérios por meio dos quais se constrói algumas coleções de arte.
Este conjunto de relações fragmentadas representa um antagonismo quase inaceitável mediante a realidade que tende ao deslocamento global - que impõe a rápida assimilação das linguagens visuais - e ao surgimento perene das novidades em todos os campos da vida em seus aspectos locais. Mas no meio disso tudo existe o desafio de vencer o conservadorismo das forças que não estejam abertas ao livre trânsito de artistas mais novos entre aqueles que já atuam há mais tempo dentro chamado estabilishiment das artes.
A fragmentação é compreensível se formulamos a visão de que realmente não houve o diálogo devido entre gerações brasileiras nos últimos trinta anos, mas, não é aceitável do ponto de vista da articulação real do meio artístico e sua representatividade no meio cultural. Acaba-se que, por estas circunstâncias, passam a existir gerações como guetos e não mais como grupos interseccionados pela natureza de uma sucessão biopsicosocial que é esperada dentro de qualquer processo de civilização.

O ideal seria que pudéssemos compensar a distância conceitual nas relações com a aproximação das diferenças que perfazem a visualidade contemporânea.
Há uma necessidade premente de integração interna e externa do Brasil e de artistas brasileiros. E parece que quase todos os nossos países vizinhos conseguem projetar para o mundo, mais do que nós, seus interesses e ações geradas pelo conhecimento das artes. Aceitar isso, a idéia de que precisamos ir além do ostracismo disfarçado de globalidade que vivemos atualmente é caminhar de fato para a funcionalidade da arte brasileira, dentro e fora do Brasil.

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