ut pictura diversitas
Pintura Contemporânea ou ut pictura diversitas
“... o caminho dos pintores, reto e curvo”.
Heráclito
“A fé é o instinto da acção”.
Fernando Pessoa
...“ut pictura poesis”...
Horácio
A arte não é nem aquilo que se consagrou nem aqueles que estão por se consagrar. Pelo simples motivo de que quando não se consagra aquele que anda do presente para o futuro, o sentido do passado deixa de existir.
A mostra ut pictura diversitas caracteriza-se pelo desejo de reunir artistas que fazem pintura, cada qual com a matéria específica do conhecimento desta linguagem e suas respectivas variações. O encontro destes 20 artistas não trata de uma visão linear e definida pela separação de movimentos, ao contrário, é uma proposta de aproximação dos interesses de um grupo de artistas que entre gerações distintas manifesta-se através da pintura.
As chances de ampliação e concretização desse diálogo extrapolam o horizonte da visualidade e ampliam-se através do papel que este espaço – a Galeria Marta Traba - pode exercer, possibilitando a reflexão que faremos sobre realizar uma Bienal de Pintura Latino-americana. Esta liberdade se deve, sem dúvida, ao papel de abertura do Memorial da América Latina e o que ele representa como legado de integração na figura de seu presidente atual, Fernando Leça, que tem se disposto a nos dar espaço e motivação para agir. Divido a missão com quem tiver interesse.
Problemas e soluções são uma lei de compensação. E o conflito de gerações, linguagens e interesses, passa também pelos dogmas recentes como da ruptura, happening, anti-formalismo, predominância do conceitual, aparecimento da arte-tecnologia e arte-assistencialismo. Artistas vivem separados por menos de uma década de atuação, entre diferentes e possíveis caminhos da arte contemporânea. Não fosse isso, talvez, a “metáfora da morte da pintura” poderia nos ter enriquecido muito mais quando ocorreu.
Isto é um exemplo do que temos à buscar: a superação das compartimentações. O mesmo vale para a crítica, os critérios culturais e curatoriais, o gerenciamento das instituições e critérios por meio dos quais se constrói algumas coleções de arte.
Este conjunto de relações fragmentadas representa um antagonismo quase inaceitável mediante a realidade que tende ao deslocamento global - que impõe a rápida assimilação das linguagens visuais - e ao surgimento perene das novidades em todos os campos da vida em seus aspectos locais. Mas no meio disso tudo existe o desafio de vencer o conservadorismo das forças que não estejam abertas ao livre trânsito de artistas mais novos entre aqueles que já atuam há mais tempo dentro chamado estabilishiment das artes.
A fragmentação é compreensível se formulamos a visão de que realmente não houve o diálogo devido entre gerações brasileiras nos últimos trinta anos, mas, não é aceitável do ponto de vista da articulação real do meio artístico e sua representatividade no meio cultural. Acaba-se que, por estas circunstâncias, passam a existir gerações como guetos e não mais como grupos interseccionados pela natureza de uma sucessão biopsicosocial que é esperada dentro de qualquer processo de civilização.
O ideal seria que pudéssemos compensar a distância conceitual nas relações com a aproximação das diferenças que perfazem a visualidade contemporânea.
Há uma necessidade premente de integração interna e externa do Brasil e de artistas brasileiros. E parece que quase todos os nossos países vizinhos conseguem projetar para o mundo, mais do que nós, seus interesses e ações geradas pelo conhecimento das artes. Aceitar isso, a idéia de que precisamos ir além do ostracismo disfarçado de globalidade que vivemos atualmente é caminhar de fato para a funcionalidade da arte brasileira, dentro e fora do Brasil.
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