Este blog é dedicado ao encontro. Às coisas díspares e semelhantes evidentemente como as diversas e divergentes. Reto e curvo. Linear. Cartesiano e caótico, geométrico e expansivo. Resiliência é o estado de remorfose das coisas, quando da ruptura renascem as coisas para seu estado original de matéria e alma,e, neste caso, resiliência poética será nosso assunto. Uma vez ou outra tudo isso poderá ser nada disso.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Leptop agrestino

A casa de Lampião

A inteligência torna-se insuportável
Nas mãos de um homem rude
Que empunha a espingarda
E olha negro para o todo
A liberdade nasce possível

No sertão tudo o que parece não é.
Ser é enigma
Janelas azuis são sinais da passagem
O rastro do cangaço
A fé na história das almas

Um galho torcido apóia-se a mesa
Deixado duas vezes cinqüenta anos atrás
Uma vez por mãos que partiam
E outras imediatamente atentas
Ao sentido da morte do anfitrião

Velho, suas sementes foram deixadas
Nos paus do telhado como um pêndulo mágico
Maxixe e feijão, hélices para os cantos da mente
E marimbondos zuniam quando puseram em minhas mãos a carabina
E a saliva fez-se pluma em minha boca

E o silêncio tornou-me a inteligência insuportável
Feito que a cela onde cavalgava Lampião com sua espingarda
Lá estava na parede escura, poeira e cheiro de bala
Lapadas do Agreste, espinhos
Caldeiras da alma

O telhado, o fogão a lenha
As telhas baixas com cheiro do tempo
A lamparina, a parede amarela
A litografia de São Francisco das Chagas
Memento do velho

E a justiça empunhada ali
No metamomento
Trazendo amores, memórias
Cheiro de sexo pisado forte no chão
Poeira, tantos ferros e paus

Alma crua e inteligência que não servia
De nada quando olhei pela ultima fresta
E comecei diante das pedras
A ouvir o estranho e misterioso
Zunido das balas disparadas na era do cangaço

A espingarda em minha mão
Querendo subir para disparar
Pausou-se como o gelo da Sibéria
E ao invés de fúria cuspida
Meu coração quietou-se em paz

Para sentir a fúria com que deus ressuscita o tempo
Na alma dos homens
Ouvi passos de cangaceiros e cangaceiras
Dados a galope naquele chão
Vi suas calças e sandálias

Os óculos do compadre
E senti o cheiro de Maria Bonita
E olhei para o lado, no cômodo trespassado do medo
Vi a escuridão e a morte
Sendo praticada ali em legítima defesa

Mas a cela-fulcro
De todo sentimento
Paralisava-me, seco enquanto charque
Cacto e flutuante como os espinhos misteriosos do serrado
Eu sorri sem que houvesse em mim nenhum traço de sorriso

E qualquer areia na sola de meus pés
Fez imensa quanto a vasta sorte de pedras
O sol já se punha belo como é todos os dias
O poente do sertão
E até agora as vozes estão comigo,

Exaltando o fim do medo
e o fracasso da inteligência que corta as pedras que outro dia preservavam vidas
todas, observadas dali,
daquelas misteriosas janelas
que cravadas naquela paredes
são as almas do tempo

A casa é o maior templo
Mais sombrio e mais claro
Mais silencioso e menos calado
Despertador do espírito, fazedora dos corpos
E tudo mais ali é São Paulo e aqui, esta pequena casa
Um Louvre do Agreste




Ode

Por mais que eu ande
As ruas são sempre duras
As pedras não caem do céu
E nenhuma verdade apeia dos cavalos do tempo
Sobre o mar infinito
Afinal o eqüino cavalga sobre as montanhas
E o tempo não é veloz feito nenhum dos animais
E nenhum dos animais é veloz
Tanto quanto o tempo é capaz de ser infinito
E por mais que as ruas sejam de pedras
Nenhum asfalto substitui as primaveras
E o vento debaixo da asa dos pássaros
Apóia-os como as colunas o templo
E a certeza da morte a alma dos homens
E a vida arvora as crianças a soprarem seus apitos de brinquedo
E nenhum juiz apita o jogo sem os apitos
E nenhum jogo vence a necessidade de jogar
E a música não vence o canto
E o canto não vence o ar que respiras
E entre tu e céu nem aquele nem aquela
Que desejas é maior que o desejo eterno do desejo
Pois tudo se alimenta de tudo
E tudo do tudo
E o algodão da terra e a terra do tear
E o tear das mãos e as mãos:
De que se alimentam as mãos se o oceano se vive do sal?
O sertão se espelha na lua e a árvore no espinho
E eu da solidão que cercada de tu e de tus
Eu de mim e nenhum
Te espero entre muitos e tantas musas
Das quais me deitei
Recebi o afago das coxas
E mesmo assim nem a chuva me molhou tanto quanto a lágrima
Que minha mãe derramou quando nasci
E o pai quando deixou nossa casa
E todos os que deixaram para trás o canto dos sinos
E os amores que foram
E qual vira?
Quem entre os homens não espera o amor?
Mas andar,
Andar seja sobre as plumas ou paralelepípedos
Andar é infinito

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