Breviário pós-moderno
Breviário pós-moderno
Olinda é o lugar de onde se vê Recife
Recife moderna como o sal incrustado em suas pedras
Olinda como mar que sopra o ar sobre as ladeiras
Os pés apoiados nos paralelepípedos avistam banheiros suspensos
De cerâmica, de tortura autofágica
Olinda verte o cheiro de limbo, perfeito para emocionar
O monóxido de carbono de arrecifes internamente
Banhados pelo medo de tubarões
Mas eles não estão na água
E voam as águias sobre telhados imensos, algum tempo a mais
O silêncio é surdo
O mar é azul
O porto onde atracavam caravelas é digital
Feito antes alguma coisa soa as mãos que derrubaram almas feito machados
Caules assombrosos e aglomerados de gente
O ouro e o espelho somaram-se nessa paisagem
E pisa-se no passado olhando o futuro
Sei bem, mas é estranho olhar um futuro erigido por engenhos
Quanto é surpreendente pisar no alfarrábio arquitetônico e sentir bem dentro a modernidade.
Calam-se ao curvar do verde feito com preto e amarelo das plantas
A alfaia envergada pelo software
E os telefones apagados
E o escritor ilhado em Candeias...
Não.
Tudo é estranho: esta modernidade que avisto daqui é estranha, é falsa
É ouro de tolo
Porque a cabeça de quem está aqui, ereto e ereta sobre este chão velho e oxidado por tantas urinas de Olinda e alheias a ela
Sente-se mais ardente do que o sal, mais ardente que a mordida dos tubarões, o cheiro: obem que vai o bem que volta...
,
Preste atenção, um cheiro que faz suspeita de que eles de lá contemplam a ilha...
A ilha digital é velha, arcaica, ergueu espelhos com a força arraigada de desmantelos canaviais e seu limite geográfico,
Aqui a elegante senhora menina, Olinda, nada quis ser, mas é a pequena ilha de onde se pode pressentir a imensa história e o imenso mundo,
As galáxias se quizer, alguém seja você, ele ou ela
Algo que nem a pobreza menos assustadora aqui do que lá corrói
E nem se pode correr nas ruas estreitas que não dão saída
Aqui se sabe andar lento pensando rápido
Como se vai lá ao passo de rápidos espelhos e pensando-andando lento por dentro, lento como os animais do engenho por mais rápido que fossem e eram bois e não tratores e hoje são corpos pesados e não tão ágeis como a magreza de um sertanejo
E eram escravos, homens menos do que animais tratados
Não.
A pobreza respeita Olinda, os pobres a respeitam
E a pobreza rege Recife por tanto ela é mais lá do que aqui... nestas pedras há séculos encaixadas
Lá a pobreza comanda mas ela não é essa residual dos engenhos socados e moídos feito bagaços nas periferias
Lá ela está nas mentes mais brilhantes, ou melhor, espelhadas
Aqui se pode ver bem...
Que as cidades espelhadas comunicam-se com outros espelhos, como satélites
E para que saber o que existe dentro destes espelhos multi-lado?
Nada, para que saber o que há dentro?
Espelha-se daqui e de lá a ser alguma coisa que se pareça mais e mais
Com os maiores espelhos do mundo (ler delirando)
Sou aquele e aquela que está no espelho...
Mas Olinda não...
Olho Recife daqui e não me sinto o espelho...
E olho Olinda do jardim do escritor ilhado em Candeias e não vejo que lá é espelho de aqui...
Meu deus!!!
Há um espelho partido nos céus, entre Olinda e Recife, há um espelho partido
Ou uma misteriosa ligação sem espelhos
Olinda não parece mais a velha senhora... Parece velho o que vejo do lado de lá...
Uma casaca falsamente nova completamente plena da velha mentalidade de antes
Mas aqui, neste chão o tom da novidade flutua
E a liberdade de continuar também...
Saulo di Tarso
Para Maurício, Guita, Humberto, Zé Cláudio, Inaldo, Mário, o cada dia mais chorão Chico Buarque e Catarina. Para Luciano Garcez, para Carina Arantes, Mônica Lapa, Macedônia. Para os cegos e aos vivos já que antes dedico aos meus amigos. Para meu pai Sobreira de Araújo que veio soprado e me fez soprado a este pedaço do mundo. Susete e nosso filho (a). Ao silêncio, à meditação. Para ninguém. Para Paranapiacaba e Maria Bonita. Para os corruptos e os poetas corruptos ou não. Para Hélio Soares, para Luiza rainha do Carnaval. Para Turini, para trenó. Para Flávia Salgado, Daniela Labra, Margarida Knobe... Maetê Proença vulgo “Madame resiliência”. E. Morin que “a vida vem por aí”. Para Susana antes de tudo Salles, a mulher que deu à Koellreutter a sorte de cair no Brasil. Piazzolla e Catalina Lopes. Ilo. Tchau... para Mônica... para quem quizer... dedique você daqui por diante e se não quizer, replique ou esqueça... e para Malú e sua última tragada e dois Betos... de onde parti... Clara... câmera clara, câmera escura. K-boco... cantéis amicci e assim sucessivamente...
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