Este blog é dedicado ao encontro. Às coisas díspares e semelhantes evidentemente como as diversas e divergentes. Reto e curvo. Linear. Cartesiano e caótico, geométrico e expansivo. Resiliência é o estado de remorfose das coisas, quando da ruptura renascem as coisas para seu estado original de matéria e alma,e, neste caso, resiliência poética será nosso assunto. Uma vez ou outra tudo isso poderá ser nada disso.

domingo, 27 de maio de 2007

O sim e o não




Não
começar com a noite e sentir a tua pele ao longe
e tantas vezes lembrar que a vida é única
cada um de nós na mínima fração do universo
e como todo grande amor se conhece no fim,
próximo a fechar os olhos e partir deste mundo
a estranha magia é a de não sabermos se tantos nãos
quanto um único sim valem
e sinais de desejo espalhados pelo chão, o sal da terra
e o sal do corpo despendido sobre a terra
e os mares da razão violenta e mãe de toda coragem
e elaboradora de toda a covardia

E se se nem mesmo nossos espelhos e se nem mesmo
pára-sóis, satélites, naves espaciais e trovões
podem varrer do mundo os homens e as mulheres belas
se nem mesmo o deus possa ser um deus
se um filho não possa extrair do pai o amor universal
se somos o infinito porque nem mesmo o instante pode fascinar mais
do que o tempo evanescente de todos os momentos
e se o demônio encontra covardemente um deus e um deus covardemente assola os demônios

Porque?
entre todos os olhos vejo os teus olhos e nada como eles
nem tempo nem todos os outros olhares podem apagar
tua face de mim, teu aroma em todas as manhãs
e se sou todos os filósofos que li, se são todas as cenas que atuaste
se são todas as letras que tu filósofa escreveste
se nada tem explicação e se o espaço é desconhecido
e se a pedra permanecerá muda no tempo, sim com os gestos do escultor
mas sem a sua pele e sem o teor das palavras
sem o ruído de tantas fornalhas da alma a caminho do cosmos
se todas as noites são o mistério da noite para eu tu ele nós vós e eles
se toda liberdade existe

e nada é como estarmos imbricados em nossos corpos
e todo o silício jamais possuirá o cheiro a não ser o despertar dos cheiros
se toda a água deverá haver para que as máquinas não parem
se todas as rezas emanarão infinitas vozes humanas ao sideral
e todas as horas ouvirei e ouvirás o tempo dizendo cala-te minha e tua vida
então toda a utopia, todos os monstros
todo céu e todas as fúrias purgantes do fogo
toda miséria, toda a mesquinhez, todas as epígrafes
serão nada mais do que o recomeçar talvez

E se a pele não é mais o sinal do gelo
nem mesmo os arranhões feitos à faca
ou a carícia terminante do amor ensandecido a jorrar e gelar
e se as palavras voam do estúpido ao gênio
e o gênio poderá ser estúpido e o idiota delicado como a flor
a saudade então é a eternidade de uma só fração do caminhar
enquanto todos os materialistas conspiram em favor dos espiritualistas
e todos os espiritualistas confabulam em favor do materialistas
os mortais amanhecem e anoitecem do seu sono tranquilo
e os que amam a noite, no dia amanhecem dispostos para
o sim

II

o sim de todos os nãos e os não de todos os naufrágios
será que existe alguma verdade?
as palavras e as coisas?
será que existem as palavras?
será que será?
será que o sal é mesmo sal?
será o mar feito de água e os ares feitos de ares?
quem poderá dizer que sim e quem poderá dizer que não...
quem poderá abandonar Epicuro e Platão
quem terá a presença de conhecer Heráclito para ressuscitar talvez
um pouco do feixe de luz dos ferreiros
o fogo que afia o ferro
sim e não...
quem poderá dizer nada e tudo
se as mãos dos homens não páram?

1 comentários:

Janine disse...

... Sensibilidade... !


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