O graffiti na curva do half pipe
“Não se deve ter pressa para desenhar alguma coisa que vai pertencer à posteridade”.
Imagine a tranqüilidade com que Leonardo Da Vinci depositou seus gestos para construir o quadro da “Monalisa” e os caras, nas cavernas, juntando gordura e pigmentos para desenhar humanos, bichos e seres que permanecem indecifráveis nas pedras do planeta, há mais de 40 mil anos.
Está tudo espalhado por aí, o que ficou e, de algum modo, o que se apagou. Inconformados nós descobrimos que há milhões de anos o homem se exprime deste modo, gravando suas percepções nas paredes, que metaforicamente transformaram-se nos planos da pintura e da tela de cinema. O mistério é a relação entre o horizontal e o vertical, que surge nos pequenos traços, num vôo linear e colorido.
De vez em quando um gênio inventor cai para o alto, vê as coisas lá de cima e quando aterrissa imprime as marcas do que viu. Daí, nosotros, quando percebemos as marcas feitas por este sujeito inovador, dizemos: tá aí, surgiu alguma coisa nova.
E o novo jamais é transitório, ele se sobressai e modifica os aspectos do tempo. A novidade sim é transitória, mas o novo não. Mesmo quando a transitoriedade é a marca da linguagem em questão.
O graffiti em si não é transitório. Transitória é a grafitagem e a variação de seus estilos. O novo na arte desce e sobe com a lei da gravidade e desliza nas linhas da história, como um skatista anda num half pipe. E tudo aquilo que se transforma ou não em arte, depende da habilidade com que se faz as manobras: criativas, mercadológicas, midiáticas. Mas vence e permanece a invenção, a inteligência visual.
É, a história da arte possui uma relação com as pistas de skate. E o skate com a força filosófica do pêndulo como se vê no half pipe. Me dei conta disso hoje pela manhã quando olhava, aqui no Agreste pernambucano , uns ossos de cavalo, debaixo de um cacto “animal”, o esqueleto branco, reluzindo o sol. Imaginei pinta-los e senti a paciência necessária para achar com um pedaço de carvão, cada um de seus contornos. Só pra ilustrar, essa área é repleta de rochas graníticas com muitas inscrições rupestres.
Cada pedacinho da atitude de pintar leva a uma reflexão. E no silêncio da reflexão, pensando, ouvi uma voz do além a dizer: “não se deve pintar com pressa uma coisa que você pretende deixar para a posteridade”. Então me dei conta do que está ocorrendo na cultura atual do Graffiti e seu movimento de transição. Estou me referindo ao Graffiti contemporâneo.
O spray rompeu a vontade inicial de comunicar dos taggs, e as imagens elaboradas nos muros do mundo romperam os limites do museu e imprimiram a arte na rua. E isso gerou uma coisa incrível, uma rede de informação que se elaborou esteticamente para um chinês, europeu, africano e brasileiro: afinal, quem não sabe o que é graffiti?
O fato é que alguns grafiteiros, tiveram a sacação de parar e no meio da correria e da moda que embala o Graffiti. Por isso, de uns anos pra cá, inventaram estilos, linguagens e raciocínios visuais que discutem o mundo e as comunidades que estão ao redor de suas pinturas e vencerem, com sua forte presença local, aquela flutuação da arte das galerias e museus. Mais propriamente, o graffiti surgiu como um evidente contraponto da arte conceitual nos últimos 30 anos.
Durante a segunda Guerra escrevia-se frases de protesto nos muros, é assim em todo o lugar quando se quer falar alguma coisa. Mas o Graffiti, além de comunicar alguma coisa nova, ganhou vida própria como linguagem visual. A arte conceitual se esgotou nela mesma, a cena ficou vazia e parece estar chamando alguma novidade para o seu establishment como é natural: é a vez do graffiti.
Com a diferença de que a “Monalisa” está preservada há séculos, é um quadro, e a imagem do grafitti pode sumir de um dia para o outro, justamente porque a grafitagem pode não buscar a posteridade. Disseram também que a pintura ia morrer, mas não é bem assim e quando um graffiti se apaga surgem outros nos muros: enquanto houver grafiteiros haverá graffiti.
Voltando a caverna, quando nos vestíamos com a pele dos animais e depois o tecido, até o algodão esticado no bastidor de madeira formar a tela como suporte da pintura e, agora, voltando ao assunto da pele, se imaginarmos os muros como expressão da nossa primeira casa, as cavernas, compreenderemos que o graffiti possui uma vida própria e misteriosa como linguagem visual autônoma e como pele urbana, que assemelha-se a pintura mas eliminou, originalmente, o pincél, a estática vista num tubo de tinta amassado sobre a mesa do pintor moderno. O estúdio do graffiti é o corpo do grafiteiro assim como o alcance de sua obra é o mesmo do seu deslocamento pelos lugares do mundo onde for grafitar.
A lata de spray é móvel, a tinta é acionada pelo sopro; o graffiti pulveriza, é leve. Exposto em todas as cidades, interage com a cor dos automóveis em trânsito e a roupa de todos que passam nas ruas. A nova geração do graffiti está ocupando os museus, portanto torna-se inevitável, o encontro do graffiti com a pintura e da pintura com o graffiti. Aquela situação do passado que fazia do museu um lugar distante pra galera do graffiti tanto quanto a pintura da rua que ficava menosprezada para alguns pintores e gente de museu são situações que já eram! Se permanecer é por incompreensão, desinformação, ou pra resumir, preconceito.
Mas o graffiti não é a “Monalisa”, embora os museus e curadores estejam sorrindo para ele. E terá que se achar o equilíbrio entre a velocidade de ascenção e queda na curva do half pipe que foi colocado no limite entre a rua e a porta do museu. Você dropa na rua e vai parar dentro do museu, dropa no museu e vai parar na rua. Existe o artista que faz graffiti e encontrou a pintura do mesmo modo como os outros que faziam pintura e encontraram o graffiti mas, na verdade, dropar de um lado do half com sprays e chegar do outro lado com eles, e de repente voltar com mais uns pincéis, e vice-e-versa é uma questão de liberdade.
O que define a atitude de cada um é a coragem de encarar ou não o desafio do pêndulo, que passa entre o museu estático e o movimento das ruas. Duvido dos radicais que não vêem comunicação entre uma coisa e outra, mas como não há respostas definitivas para nada, vou ler de novo um livro chamado “Isto não é um cachimbo”, de Michel Foucault. Fazer perguntas nessa altura do campeonato importa mais do que obter respostas.
O graffiti é mais democrático por isso ou aquilo, por estar na rua e não no Museu? Não necessariamente, porque nem todas as ruas são democráticas, assim como o acesso a elas muitas vezes é fechado e da mesma maneira como instituições de arte que se dizem democráticas, com suas portas abertas são contraditoriamente fechadas pelo seu conteúdo e pela indução que operam no caminho de jovens artistas. E nem sei se a democracia é o papel maior graffiti.
Alguém colocou o half pipe bem no limite entre uma coisa e outra. A linha divisória passa no eixo das manobras e o interessante é que este limite está no grau zero da curva.
E depois da transição, quem sabe, a pintura migre do ut pictura poesis para ut mistura poesis, presente no trabalho de Nunca, Spetto, Kboco, Onesto, Ciro Schunemann e Daniel Melim. Isto, para citar apenas alguns dos nomes que estão no movimento do half pipe por uma questão da sua elaboração de linguagem e não apenas por estarem ou não expondo no circuito oficial das artes visuais recentes.
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Está tudo espalhado por aí, o que ficou e, de algum modo, o que se apagou. Inconformados nós descobrimos que há milhões de anos o homem se exprime deste modo, gravando suas percepções nas paredes, que metaforicamente transformaram-se nos planos da pintura e da tela de cinema. O mistério é a relação entre o horizontal e o vertical, que surge nos pequenos traços, num vôo linear e colorido.
De vez em quando um gênio inventor cai para o alto, vê as coisas lá de cima e quando aterrissa imprime as marcas do que viu. Daí, nosotros, quando percebemos as marcas feitas por este sujeito inovador, dizemos: tá aí, surgiu alguma coisa nova.
E o novo jamais é transitório, ele se sobressai e modifica os aspectos do tempo. A novidade sim é transitória, mas o novo não. Mesmo quando a transitoriedade é a marca da linguagem em questão.
O graffiti em si não é transitório. Transitória é a grafitagem e a variação de seus estilos. O novo na arte desce e sobe com a lei da gravidade e desliza nas linhas da história, como um skatista anda num half pipe. E tudo aquilo que se transforma ou não em arte, depende da habilidade com que se faz as manobras: criativas, mercadológicas, midiáticas. Mas vence e permanece a invenção, a inteligência visual.
É, a história da arte possui uma relação com as pistas de skate. E o skate com a força filosófica do pêndulo como se vê no half pipe. Me dei conta disso hoje pela manhã quando olhava, aqui no Agreste pernambucano , uns ossos de cavalo, debaixo de um cacto “animal”, o esqueleto branco, reluzindo o sol. Imaginei pinta-los e senti a paciência necessária para achar com um pedaço de carvão, cada um de seus contornos. Só pra ilustrar, essa área é repleta de rochas graníticas com muitas inscrições rupestres.
Cada pedacinho da atitude de pintar leva a uma reflexão. E no silêncio da reflexão, pensando, ouvi uma voz do além a dizer: “não se deve pintar com pressa uma coisa que você pretende deixar para a posteridade”. Então me dei conta do que está ocorrendo na cultura atual do Graffiti e seu movimento de transição. Estou me referindo ao Graffiti contemporâneo.
O spray rompeu a vontade inicial de comunicar dos taggs, e as imagens elaboradas nos muros do mundo romperam os limites do museu e imprimiram a arte na rua. E isso gerou uma coisa incrível, uma rede de informação que se elaborou esteticamente para um chinês, europeu, africano e brasileiro: afinal, quem não sabe o que é graffiti?
O fato é que alguns grafiteiros, tiveram a sacação de parar e no meio da correria e da moda que embala o Graffiti. Por isso, de uns anos pra cá, inventaram estilos, linguagens e raciocínios visuais que discutem o mundo e as comunidades que estão ao redor de suas pinturas e vencerem, com sua forte presença local, aquela flutuação da arte das galerias e museus. Mais propriamente, o graffiti surgiu como um evidente contraponto da arte conceitual nos últimos 30 anos.
Durante a segunda Guerra escrevia-se frases de protesto nos muros, é assim em todo o lugar quando se quer falar alguma coisa. Mas o Graffiti, além de comunicar alguma coisa nova, ganhou vida própria como linguagem visual. A arte conceitual se esgotou nela mesma, a cena ficou vazia e parece estar chamando alguma novidade para o seu establishment como é natural: é a vez do graffiti.
Com a diferença de que a “Monalisa” está preservada há séculos, é um quadro, e a imagem do grafitti pode sumir de um dia para o outro, justamente porque a grafitagem pode não buscar a posteridade. Disseram também que a pintura ia morrer, mas não é bem assim e quando um graffiti se apaga surgem outros nos muros: enquanto houver grafiteiros haverá graffiti.
Voltando a caverna, quando nos vestíamos com a pele dos animais e depois o tecido, até o algodão esticado no bastidor de madeira formar a tela como suporte da pintura e, agora, voltando ao assunto da pele, se imaginarmos os muros como expressão da nossa primeira casa, as cavernas, compreenderemos que o graffiti possui uma vida própria e misteriosa como linguagem visual autônoma e como pele urbana, que assemelha-se a pintura mas eliminou, originalmente, o pincél, a estática vista num tubo de tinta amassado sobre a mesa do pintor moderno. O estúdio do graffiti é o corpo do grafiteiro assim como o alcance de sua obra é o mesmo do seu deslocamento pelos lugares do mundo onde for grafitar.
A lata de spray é móvel, a tinta é acionada pelo sopro; o graffiti pulveriza, é leve. Exposto em todas as cidades, interage com a cor dos automóveis em trânsito e a roupa de todos que passam nas ruas. A nova geração do graffiti está ocupando os museus, portanto torna-se inevitável, o encontro do graffiti com a pintura e da pintura com o graffiti. Aquela situação do passado que fazia do museu um lugar distante pra galera do graffiti tanto quanto a pintura da rua que ficava menosprezada para alguns pintores e gente de museu são situações que já eram! Se permanecer é por incompreensão, desinformação, ou pra resumir, preconceito.
Mas o graffiti não é a “Monalisa”, embora os museus e curadores estejam sorrindo para ele. E terá que se achar o equilíbrio entre a velocidade de ascenção e queda na curva do half pipe que foi colocado no limite entre a rua e a porta do museu. Você dropa na rua e vai parar dentro do museu, dropa no museu e vai parar na rua. Existe o artista que faz graffiti e encontrou a pintura do mesmo modo como os outros que faziam pintura e encontraram o graffiti mas, na verdade, dropar de um lado do half com sprays e chegar do outro lado com eles, e de repente voltar com mais uns pincéis, e vice-e-versa é uma questão de liberdade.
O que define a atitude de cada um é a coragem de encarar ou não o desafio do pêndulo, que passa entre o museu estático e o movimento das ruas. Duvido dos radicais que não vêem comunicação entre uma coisa e outra, mas como não há respostas definitivas para nada, vou ler de novo um livro chamado “Isto não é um cachimbo”, de Michel Foucault. Fazer perguntas nessa altura do campeonato importa mais do que obter respostas.
O graffiti é mais democrático por isso ou aquilo, por estar na rua e não no Museu? Não necessariamente, porque nem todas as ruas são democráticas, assim como o acesso a elas muitas vezes é fechado e da mesma maneira como instituições de arte que se dizem democráticas, com suas portas abertas são contraditoriamente fechadas pelo seu conteúdo e pela indução que operam no caminho de jovens artistas. E nem sei se a democracia é o papel maior graffiti.
Alguém colocou o half pipe bem no limite entre uma coisa e outra. A linha divisória passa no eixo das manobras e o interessante é que este limite está no grau zero da curva.
E depois da transição, quem sabe, a pintura migre do ut pictura poesis para ut mistura poesis, presente no trabalho de Nunca, Spetto, Kboco, Onesto, Ciro Schunemann e Daniel Melim. Isto, para citar apenas alguns dos nomes que estão no movimento do half pipe por uma questão da sua elaboração de linguagem e não apenas por estarem ou não expondo no circuito oficial das artes visuais recentes.
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2 comentários:
muito pertinente este texto !
essa frase sobre nao se ter pressa de se pintar algo que ficara pra posteridade me tocou.
e muito legal essa analogia do graffiti com o skate e o half-pipe.
Muito bom receber comentários que nos estimulem a continuar uma linha de pensamento, afinal, a aproxímação do graffiti com o circuito tradicional da arte é um risco que precisa ser corrido.
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