Este blog é dedicado ao encontro. Às coisas díspares e semelhantes evidentemente como as diversas e divergentes. Reto e curvo. Linear. Cartesiano e caótico, geométrico e expansivo. Resiliência é o estado de remorfose das coisas, quando da ruptura renascem as coisas para seu estado original de matéria e alma,e, neste caso, resiliência poética será nosso assunto. Uma vez ou outra tudo isso poderá ser nada disso.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Do direito às artes e das artes ao Direito

por saulo di tarso


"O homem que música em si mesmo não traz, nem se comove ante a harmonia de agradável toada, é inclinado tão-só a traições, e a roubos, e a todo estratagema (...). De um homem assim, desconfiai sempre".
William Shakespeare
[1]

"Todos os nossos grandes artistas são pessoas ligadas às transformações políticas."
"Um milhão de pessoas já coloca a mostra concorrendo com o futebol. Isto é inédito."
"A arte não é democrática, ela é elitista. Melhor ir se acostumando."
Nelson Aguilar
[2]

"A atividade artística é uma coisa que não depende, pois, de leis estratificadas, frutos da experiência apenas de uma época na história da evolução da arte. Essa atividade se estende a todos os seres humanos, e não é mais ocupação exclusiva de uma confraria especializada que exige diploma para nela se ter acesso. A vontade de arte se manifesta em qualquer homem de nossa terra, independente do seu meridiano, seja ele papua ou cafuzo, brasileiro ou russo, negro ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado."
Mario Pedrosa
[3]



Pequeno esclarecimento sobre a estética do preconceito

A estética do preconceito é aquela que definha as relações humanas por meio de uma educação que aparenta ser, mas não o é em essência. Julgar pela aparência, discriminar pelo bairro em que se vive, escola na qual se formou, currículos, instituições pelas quais passamos, lugares que freqüentamos, atuamos, trabalhamos, e nos quais inventamos e exercemos nossa vida íntima e social, é naufragar no erro e na proibição. É a estética do preconceito, aquela que se propõe a viabilizar o acesso, mas não deixa as portas abertas.


Sobre a valorização ética da cultura e das artes na geografia das cidades

A futilidade está instalada no meio cultural e artístico da atualidade. O diálogo entre a produção cultural e a artística quase não cumpre o papel de transmissão de uma comunicação verdadeira e relevante entre aquilo que é produzido e o espectador da produção apresentada. A documentação é mais valorizada do que aquilo que se produz, em vez de se priorizar o contato visceral do artista com a comunidade na qual ele vive e com a qual o seu diálogo permanente deveria existir: um diálogo voltado à autobiografia do ser e não ao exibicionismo pseudo-estrutural dos meios de comunicação de massa. Refiro-me, aqui, ao numerologismo cultural, às políticas de obsessiva lotação dos assim chamados "espaços culturais públicos", ao preconceito sobre as formas de se adquirir e transmitir conhecimento, ao centralismo das instituições, à supervalorização de algumas personalidades – as quais criam, muitas vezes, falsos parâmetros de uma chamada abertura e democratização do acesso à vida cultural – e, principalmente, ao mau uso do dinheiro público e à negligência das autoridades municipais na aplicação dos recursos, determinados pela Constituição Federal, na construção e na manutenção da vida cultural e artística nas cidades. Lembre-se, ainda, que, na área da cultura, primeiro são feitos os cortes da administração pública, em geral, sem se avaliar, competências e destinos de projetos culturais e respectivas ações em vias de concretização. Se, por um lado, a comunidade cultural e artística exerce sua função crítica, por outro, o poder público, em geral, recolhe-se e pede o envio de soluções no lugar das críticas. Esta prática tem-se tornado comum também nas universidades, dentro de uma lógica ultrapassada naquilo que tange à dicotomia das relações entre o assim chamado mestre e seus alunos; e, ainda, na imprensa, que cria o seu universo diário de informações sem a fundamentação in loco daquilo que noticia, promulgando, muitas vezes de modo superficial, fatos fictícios que transparecem aos seus milhares de receptores como a suposta "verdade dos acontecimentos". Mas poucos, nestes grupos, se dão conta da fragmentação social que este ciclo vicioso produz e de que o enciclopedismo – tanto o tradicional quanto o virtual – constitui a morte do conhecimento. Por outra via, quando as soluções são apontadas, acontecem as não menos comuns disputas entre as pessoas e os setores, interna e externamente, pela autoria da solução. O resultado disso, na maioria das vezes, é a ocultação e o mau uso das idéias, a apropriação superficial dos conceitos apontados para a comunidade por seres que a ela pertencem. Então, pergunto: não somos, por acaso, seres de uma mesma comunidade? O que são os nossos espíritos: a casa das disputas egocêntricas ou a casa determinante das mutações antropológicas amplas?

Além disso, diferenciamos o homem do poder público e da comunidade, colocando-os, cada vez mais, em patamares estanques, tanto individual quanto coletivamente. São raros os governos de participação popular, nos quais os conselhos públicos possuam poder deliberativo, além de “espaço falatório” em plenárias de discussão – e, nestas, a cultura é sempre um voto vencido. Não se faz a distinção clara e necessária entre a cultura e as artes, nem se ponderam questões estéticas e éticas para além de uma superficialidade temática, como demonstram as inúmeras recorrências nos fóruns de debate, quase sempre aglutinados por temas já conhecidos, como arte-tecnologia, arte-educação, identidade cultural, marketing cultural, etc. Esses encontros só raras vezes levam em consideração a necessidade do exercício permanente da arte e da instauração da cultura no organismo das cidades. Este é um fenômeno generalizado na região metropolitana de São Paulo. É um fenômeno que só tem conseguido ampliar, paulatinamente, o afastamento dos grupos de arte e cultura da realidade dos seus, outrora, naturais e possíveis fruidores, transformando a todos nós – artistas, arte-educadores, atores, bailarinos, poetas, escritores, cineastas, dramaturgos, performers, artistas plásticos, músicos e, não excluamos, gestores diretos das políticas públicas (oficiais), como os diretores de cultura, gerentes de área, secretários de cultura, agentes culturais, produtores, curadores de museus, críticos, professores e estudantes universitários – em dialogadores solitários, individualistas, corporativistas e, inquestionavelmente, em construtores da compartimentação, no lugar de reais integradores sociais.

Ou seja, arte, cultura e comunidade se afastam, cada vez mais, da formação de um todo integrado, que deveria constituir a sociedade. Nós, os chamados "cultos", falamos e posamos, pós-modernisticamente, em favor da chamada "reciclagem" das periferias, quando, na verdade, são os centros que deveriam ser reciclados, para que as periferias deixassem de existir como fenômeno das sobras sociológicas. Aliás, não só os centros deveriam ser reciclados, como também a idéia de centralização. Centralizar é viver no atraso, especialmente em um país em que é gravíssimo o problema do roubo justificável e da centralização dos recursos. Não é demais afirmar que o mesmo problema ocorre na área da cultura e das artes. Assumimos a postura de "semideuses", ao procurarmos ascender individualmente. O cultivo do status quo personalista, a idéia de celebrização do eu, a qualquer custo, são posturas que em nada contribuem para a transformação da vida cultural e artística. Ao contrário, condenam toda nossa comunidade ao “vitrinismo” cultural, ao subfazer. Este modelo, visível a todos em inúmeros eventos culturais, reflete um verdadeiro jogo frenético, no qual uma profunda decadência espiritual rege as regras de conduta. O processo de fragmentação social se alastra internamente e de dentro para fora, nas chamadas células de formação da inteligência nacional: partidos políticos de esquerda, direita, centro e posições camaleônicas, universidades e demais órgãos oficiais. Estes órgãos que, do ponto de vista oficial da cultura, existem porque “cultivam-se” em grupos fechados, por meio das chamadas pedagogias e políticas oficiais, nas quais ainda se tem a ilusão de que estão lá, dentro deles, o domínio absoluto das ciências produzidas pelo homem e, respectivamente, a solução completa para as deformidades sociais. Assim, acabam instituindo o preconceito de maneira oficial, diante da vida cotidiana.

Sim, a vivência é transformada em conceituação da realidade. Mas não nos esqueçamos de que a vida transformada apenas em conceituação dela mesma passa a ser a vida dentro de uma cápsula laboratorial, cujas paredes mentais e operacionais são um limite antagônico à própria expansividade que se diz buscar. O resultado é a burocracia, surgindo, mais e mais, contra a dinamização do processo social como um todo e, quando não, como desculpa para a não realização das coisas.

Porém, há que se lembrar que esta situação não impede a eclosão de fenômenos culturais de maior importância, em todas as etapas da evolução do conhecimento, dentro e fora da nossa sociedade e entre sociedades distintas. Não se pode falar, mesmo inserido neste ambiente desfavorável, que não existam, em contrapartida, a cultura e as artes em um exercício mais elevado. No entanto, convém notar que, em geral, é esta a situação atual do meio cultural e são estas as conseqüências da noção de um pseudocultivo da cultura e do espaço das artes na nossa sociedade.

A desvalorização dos espaços culturais, tanto quanto a do papel do artista, é fruto também dele mesmo, ao rejeitar seu próprio aprimoramento, ao se dedicar pouco ao aprofundamento estético, ao competir desenfreadamente contra o seu semelhante e contra o espelho. Corre-se, assim, contra a arte e seu verdadeiro exercício. Destroem-se deste modo os meios culturais e a funcionalidade das artes.

Ao invés de seres transformadores, temos sido, contemporaneamente, seres estagnados no processo romântico da auto-reverência. As comunidades não dialogam de modo construtivo e ficamos, muitas vezes, cercados e amarrados, em nossas ações, por uma lógica de interesses que se sobrepõe a qualquer paralelo verdadeiramente integrador. Meramente, interesses. Na maioria das vezes, age-se de maneira impensada, automática. Ainda é comum a desvalorização do ato de pensar, assim como é comum o hábito de se considerar a aculturação e o fazer artístico como coisas inúteis, atividades indignas de articulação setorial e econômica. É visivelmente comum a arte e a cultura serem aceitas e veiculadas como coisas supérfluas no perímetro da sociedade brasileira. Infelizmente, é também comum que as administrações públicas de cidades menores imitem procedimentos socioculturais das cidades maiores, por mera mimese, sem nenhuma reflexão sobre o ato de imitar e muito menos sobre o fato de que assim se plantam o provincianismo e a automação do conhecimento sensível, causando a superficialização contínua dos valores civilizatórios que a arte deveria exercer. Subvertemos as lógicas da criação, da preservação dos valores e das idéias originais e, por conseqüência, a humanização do espaço urbano, porque, dignamente, acreditamos que os aspectos fabris da matéria de nossa razão sejam os mais relevantes para o todo. Aceitamos que o "asfalto" e as "fotos no jornal" facilitem mais as nossas vidas do que o fato de sermos cultos, no sentido fértil da palavra cultura.

Porém, se não formos educados para a locomoção, de nada adiantará termos asfalto em nossos caminhos e coleções de fotos nos nossos acervos particulares ou curriculares.

A valorização ética da cultura e das artes pressupõe que as nossas vias, ou seja, o caminho interior e o exterior do ser humano, andem juntos. E, para isso, é preciso que avaliemos constantemente a nossa relação com o meio ambiente. Exemplifico: Leonardo Da Vinci nos mostrou, pela primeira vez, em seus famosos estudos intitulados Codex Atlanticus, o desenho de uma barragem de água, muito próxima, estruturalmente, das imensas represas que construímos para armazenar e abastecer de água e energia elétrica as cidades modernas. Este invento, que nos serviu muitíssimo durante alguns séculos e ainda nos serve, não nos impediu de sentirmos, hoje, que ele não supre o problema da falta de água e, muito menos, o de nossa necessidade de nos renovarmos permanentemente, tanto no campo da invenção concreta das coisas, com as quais designamos o espaço, quanto nas relações humanas, respeitando, essencialmente, o fato de que as ciências atuais, por exemplo, no campo da física, medicina, urbanismo e educação, permitem-nos – se somadas, de modo consciente, em um campo verdadeiramente interdisciplinar – que formulemos novas linguagens em comunicação e que elaboremos um processo social mais generoso para a preservação das vidas futuras.

legenda:
Leonardo Da Vinci (1452-1519): regulagem de rios por meio de represas. Leonardo pôde também executar trabalhos práticos, como construtor hidráulico, em regulagens de rios e construção de canais no ducado de Milão e, mais tarde, em Veneza e Florença.
“Codex Atlanticus”. In: Friedenthal L., Richard. Leonardo Da Vinci, uma biografia ilustrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.


Para os mais pessimistas pode aparecer a seguinte questão: como iremos alcançar este estado de respeito às gerações futuras se, nem mesmo no presente, conseguimos manter tais prioridades?
Pois bem, surge, com esta questão, um dos fatores essenciais da ética, ou seja, a concatenação consciente entre os acontecimentos do passado, do presente e do espaço das gerações futuras.

O que fizemos no passado pode ser visto no presente. Por exemplo, antes, não dividimos a terra, não elaboramos um espaço econômico conciliado com a invenção de uma indústria autogestativa e temos, hoje, que sanar os restos da escravidão e a defasagem da nossa própria economia, no sentido de que a miséria cresce a nossa volta. Pode-se afirmar assim que nos falta o senso de uma cultura econômica verdadeira, do cultivo elementar da terra e da urbanidade como fonte dos alimentos primários, tanto para o corpo, quanto para a alma. Mas não é esta, evidentemente, uma falta conceitual. É sim, uma falta anímica, que deriva da desnutrição espiritual e, tanto mais, da falta de um sentido cultivado nas nossas ações. O direito às artes significa, no plano imediato das relações, dar ao homem e, não restritamente, ao chamado homem culto, das elites, o direito dele desenvolver, em si mesmo, formas mais elaboradas de relacionamento com o espaço, ou seja, com o meio ambiente e as relações que nele se aplicam. Sendo assim, no plano mais tardio dos efeitos da arte, significa que o direito às artes, se bem cultivado (faça-se aqui a diferenciação entre arte e cultura), poderá ampliar as chances de o homem alcançar, interna e externamente, um sentido para a existência mais próximo do sentido de liberdade. Não apenas uma liberdade utópica, mas uma liberdade arraigada ao conceito do equilíbrio individual e, do ponto de vista coletivo, à prática do equilíbrio entre as gerações. Deste exercício, bem possivelmente surgirão não apenas os novos fazedores artísticos, mas também uma possível lapidação estética do mundo e das relações que nele enfrentamos, por meio do contraponto permanente entre a alma e o espaço geográfico, no qual ela se desloca construindo a civilização. Porém, para que as relações aconteçam de maneira plena, este deslocamento precisa ser livre e amparado pelos meios de que o homem dispõe para concretizar a sua ação, tais como o direito de ir e vir e o de se manifestar plenamente.

No sistema atual, entretanto, o que existe é o conflito entre gerações e as ainda predatórias políticas de desenvolvimento, logradas pela competição incessante e geradas pela aceitação generalizada e idealizada do individualismo, no sentido menos elevado da palavra. Tudo isso, somado á ignorância das nossas chamadas elites "falsamente refinadas", inflige, sem piedade, a lógica dialética (intrínseca) dos relacionamentos entre os sexos, entre as gerações, entre as classes sociais distintas e entre as áreas distintas do conhecimento humano, gerando a fragmentação do equilíbrio e do desenvolvimento total do ser. Este desenvolvimento está impedido pela conformação de inúmeras "barragens sociológicas", como a censura econômica e midiológica, as quais contribuem para que nos furtem, justamente, dos direitos de ir e vir e de nos manifestarmos plenamente.

A supressão destes direitos provoca, em grande parte, o represamento poético das artes, diante do qual não podemos ficar paralisados. Estes direitos são imprescindíveis na totalização dos ciclos da existência humana, pois uma sociedade na qual a arte e a estética não ocupam o seu lugar de maneira material, visível, coerente e una não pode ser considerada uma sociedade madura.

A verdadeira arte, não é a apresentação superficial das coisas. É direito do homem poder elevar o seu interior a uma manifestação externa, da maneira mais plena. Portanto, uma sociedade que não legitima seus espaços culturais, educacionais, científicos e artísticos priva-se da sua própria essência de linguagem e do amadurecimento antropológico; seus indivíduos estarão sempre famintos no corpo e na alma, moldando-se interminavelmente para a defasagem histórica e o subdesenvolvimento.

Mas o que é o campo do direito e para que existem a liberdade e a ação do direito, senão, antes de tudo, para estabelecer o equilíbrio das relações e manter as raízes do amadurecimento social?

Neste sentido, a arte e o direito se aproximam de maneira indissociável. Para refletirmos esta proximidade, ouçamos aquilo que nos diz Ezra Pound[4] em um trecho de sua conhecida obra, ABC da Literatura:

A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia.

Se a literatura de uma nação entra em declínio, a nação se atrofia e decai.

O legislador não pode legislar para o bem público, o comandante não pode comandar, o povo (se se tratar de um país democrático) não pode instruir seus "representantes" a não ser através da linguagem.

E Pound vai além:

A linguagem nebulosa dos trapaceiros serve apenas a objetivos temporários.

Uma certa soma de comunicações que dizem respeito a assuntos especiais é veiculada através de fórmulas matemáticas, através das artes plásticas, de diagramas, de formas puramente musicais, mas ninguém proporia que tais formas substituíssem a fala comum ou mesmo sugeriria que isso fosse aconselhável.

Isso nos aponta para a condição de que os isolamentos individuais da vivência e das múltiplas vivências entre si representam, para todos nós, uma perda dialógica irreparável, agem como um corte no sistema nervoso da sociedade.

Dialogar verdadeiramente, porém, implica não se dissociar a reflexão do fazer. Mas nos meios de comunicação atuais, cabe ressaltar, pratica-se o informacionismo jornalístico, o qual reproduz comportamentos extemporâneos à construção do diálogo transformador, especialmente quando se parte de uma célula fechada e tenta-se, mesmo assim, caminhar na direção do todo. Criam-se hábitos de consumo da informação, cuja tendência é assimilar as notícias da imprensa e as teses com o selo de determinados órgãos do ensino como verdades incontestáveis. O impacto imediato deste modo de operar nas relações do cotidiano não poderia ser outro senão o dos intermináveis atritos exercidos por falsas correntes do exercício democrático, em que ocorre, além do exibicionismo, uma guerra de mutilações ideológicas entre ideologias, muitas vezes, ainda não amadurecidas. Os indivíduos dos grupos sociais degladiam-se entre si e perdem, com isso, seus valores de unidade. Os prejuízos antropológicos são incalculáveis. Todavia, não é suficiente criticar, sem a intenção de construir. Não basta a observação generalista dos fatos. Para que haja avanços e a dinâmica das artes possa confluir no todo, é necessário irmos além e mergulharmos em uma reflexão sumária, participativa e verdadeiramente integradora entre os grupos sociais. A arte é um tipo de moção do homem, no qual o fazer interno e o externo não se dissociam. Este não é o modo regulador apenas da arte, é também o modo de se alicerçarem todos os princípios civilizatórios, mesmo quando se ergue toda e qualquer ciência que o homem engendre no espaço.

A arte existe porque o homem, desde que nasce, percebe o mundo em que vive. Todos nós, em maior ou menor grau, o percebemos. Porém, se não cultivarmos os meios de ampliação da nossa educação sensível, seremos deseducados pela brutalidade dos fatos e, com isso, diminuiremos a intensidade com a qual percebemos tudo o que está a nossa volta. Começa aí, neste contexto, a função da arte: permitir ao homem perceber a si mesmo, ao outro e ao mundo. Por esta via, a arte torna-se uma coisa extremamente útil e funcional. Assim, nem o artista e nem a arte jamais tiveram o seu valor na inutilidade, mesmo quando a inutilidade é o seu objeto poético. A percepção é o primeiro sentido de toda a vida. Perceber conscientemente e criar o exercício da percepção consciente é elevar o ser humano ao estágio mais próximo da liberdade e do respeito aos seres vivos. Eis o que o direito às artes preserva para os indivíduos de uma sociedade. Portanto, seguem aqui os seguintes apelos:

Aos artistas:

Falem sobre aquilo que vivem e sentem. Não permitam que os seus colegas sejam “apagados”, assim como suas idéias e ações, em troca, simplesmente, de pequenas participações na máquina concernente ao poder das estruturas políticas pseudocultas, pois estas participações, em geral, não passam de pequenos espelhinhos que só presenteiam a nossa própria vaidade e servem apenas a interesses imediatistas, temporários e panfletários. É preciso um grande esforço para que haja a elevação social do Brasil, das nossas regiões, cidades e respectivos governos, assim como das nossas personalidades e do nosso trabalho artístico. É preciso mais do que o deslumbre e a supervalorização do "entrar para a história" movido pelo faz-de-conta da imprensa menos preparada. E lembrem-se: crescer a partir da destruição do espaço do outro não é crescer. Devemos lutar pela existência de ateliês públicos, teatros, auditórios, centros culturais, galerias municipais, museus, parques culturais e novos espaços voltados para o gozo e a criação das estéticas contemporâneas, equipados tanto infra-estrutural quanto pós-utopicamente; escolas de arte cujas pedagogias sejam vivas e dinâmicas, em todas as áreas do campo artístico. Integrar a arte e os artistas é fortalecer a alma coletiva das transformações. Precisamos lutar com toda a "fé e tecnologia" pela profissionalização e dignificação definitiva do trabalho artístico em todas as dimensões, o que envolve o apreender, o fazer, o ensinar a fazer e o fruir daquilo que chamamos arte.

É, sem dúvida, tarefa árdua afirmar publicamente nossas indignações, seja diante das hierarquias e dos diversos setores sociais, seja diante do povo, seja diante do governo e das elites, mas será menos difícil fazê-lo se a intenção, diferente de uma aparente provocação, for a de instaurar a renovação social dentro das relações preponderantes neste tempo. Ouçamos o que nos diz, sobre o papel deste exercício, o poeta norte-americano Walt Whitman,[5] que viveu entre 1819 e 1892, em seu poema intitulado "Precursores":

Como são eles colocados sobre a terra
(surgindo a intervalos),
como são caros e terríveis para o mundo,
como eles se habituam a si mesmos
assim como aos demais
– que paradoxo chega a parecer
o tempo deles –
como as pessoas respondem a eles
ainda que os não conheçam,
como algo de intransigente persiste
na sorte deles em todos os tempos,
como todos os tempos
escolhem mal as coisas
com que os adular e os recompensar,
e como o preço inexorável
há de ser pago ainda
pela mesma grandeza
encomendada.

Assim, vemos que é preciso mais do que individualismo, bem mais do que pesquisas somente calcadas em realidades alheias a nós, do que elogios farsantes, do que competição e fechamento do espaço de uns pelos outros, para se estabelecer o lugar das artes e da cultura na nossa sociedade, e desvelar que a cultura é, e está, em todas as atitudes que tomamos. As ações derivam, simplesmente, da bem ou mal realizada educação cultural. É preciso, já, um levante ético das nossas relações, para se acabar, entre outras coisas, com a estereotipia dos museus, das bienais e dos salões de arte contemporânea, cujas formas, em eventos, deixem de representar o sonambulismo das escolas de arte e dos centros culturais, impingindo seus guetos e premiando-os por meio de lobbies, como acontece nos panoramas musicais, teatrais, cinematográficos, na industrialização da cultura, na baixa produção editorial de temas relevantes para a cultura brasileira no mercado editorial e na ocupação dos espaços culturais, somente para atender uma lógica de entretenimento. A tudo isso, TRANSFORMEMOS. Precursor é todo aquele que luta conscientemente pela transformação das relações sociais no mundo em que vive.

Aos governantes:

Bom político é aquele que é culto politicamente. Um cirurgião que desenha mal atenta contra a vida, assim como o engenheiro que calcula mal os alicerces de uma ponte, o educador que não ensina de modo atento, o filósofo que não se dá verdadeiramente ao exercício da reflexão. Não existe diferença entre uma obra de arte, que exalta a vida interior do homem, e um cirurgião, um engenheiro, um educador, um filósofo, que "desenham" bem o exercício de suas funções. Aos governantes afirmo que privar os seus munícipes da arte e da cultura é deformá-los, assim como se deforma o espaço urbano quando se atribui o desenho da cidade a maus arquitetos e maus urbanistas. Cada munícipe é um "arquiteto" indireto das relações. O desenho de uma cidade não está restrito, porém, nem a um nem a outro, mas sim a todos os seus habitantes, os quais “desenham” a cidade consciente ou inconscientemente, constantemente. Cidadãos bem nutridos cultural e artisticamente serão, certamente, co-autores de uma cidade mais bem lapidada, que tornar-se-á exemplo de política e cultura partidária. Apelo aos presidentes de partido que instituam, nas suas bases, o pensamento cultural irrestrito, pois a revolução social, a verdadeira cidade, jamais se concretizará apenas na aparência das coisas. Visibilidade não é critério para justificar a ação cultural, se não for para se mostrar algo em que haja verdadeiramente um conteúdo.

Aos educadores e a todos, especialmente, gostaria de reavivar as palavras escritas em 1919-20, por Piet Mondrian,[6] no seu diálogo intitulado Realidade Natural e Abstrata:

O paraíso não faz jamais pensar outra coisa senão alegria. Mas o que eu acabo de dizer é alcançável até um certo ponto se não se considerar isso como uma utopia. A cidade das crianças, um dia, torna-se uma cidade de adultos: a gente tem que esperar, simplesmente, até que as crianças cresçam.

O espaço em que vivemos é a matriz e a conseqüência de boa parte de tudo aquilo que somos e legamos às gerações futuras e aos nossos contemporâneos. Precisamos criar o respeito à produção do artista e os meios de que necessita para construir a sua arte. Precisamos de instituições que integrem e dinamizem a relação entre o "aprender, o fazer e o ensinar a fazer". Devemos ficar atentos e fazer em vez de subfazer, melhor dizendo, devemos construir na sociedade brasileira o lugar para as artes e a cultura por meio do pleno exercício do fazer, porque tudo aquilo que se subfaz é também o que se “subdesenvolveu” e se “subdesenvolve”. E o subdesenvolvimento do Brasil é um fenômeno cultural e não estrutural, como se pode perceber. A subestrutura é um favor designado e complacente com o falso precursionismo, que subvenciona a síndrome do eterno colonizador daqueles, que, em outras palavras, inventam a roda e a vendem como novidade incontestável, como antídoto social. Este ciclo nocivo só pode ser quebrado se houver esforços legítimos pelo fim da ignorância, do desânimo, do plágio e da indiferença. Este ciclo só será transformado, quando substituirmos as falsas atenções por uma forma verdadeira de atenção e envolvimento com a vida cultural e artística do lugar. Cabe ressaltar que a vida é sempre um fenômeno eminentemente cultural, logo, onde não se exerce plenamente a cultura, reflete-se a má interação da vida.

Antes de tudo, é necessário que façamos e procuremos se fazer perceber, e não nos darmos, apenas, ao contentamento da subpercepção de nós mesmos e das coisas, indistintamente. A função da arte é fazer perceber, dar ao homem o direito pleno de vivenciar as suas próprias potencialidades internas, tanto aquelas que estão veladas na sua interioridade, quanto seus saberes explícitos e, assim, de viver sob a égide da dignidade.

É facultado ao homem perceber e, a partir daquilo que observa, transformar a realidade em que vive. A atuação torna o homem um ser efetivamente social, sem isso, o homem torna-se ecologicamente inoperante. E mais atua para o outro aquele que conhece a si próprio, que desperta para o todo da realidade que o cerca. Em uma época na qual a palavra de ordem é a globalização, o direito do homem aos acessos mais profundos, internos e externos, deve ser instaurado convictamente pelas frentes de uma nação, sem que isso seja confundido com a padronização. Caso contrário, nossos direitos perceptivos sucumbirão à esterilização cultural, provocando o término da diversidade geográfica e antropológica, e, finalmente, suprimindo a nossa própria inteligência, a qual orienta, preserva e dinamiza as relações sociais dos indivíduos na coletividade.

É assim para o homem, para as artes e para o todo, que deveria integrar a totalidade daquilo que o homem produz. A esse respeito, escreve Kandinsky,[7] em 1912, ao apresentar a obra teatral Der Gelbe Klang (A nota amarela):

Cada arte tem sua própria linguagem, ou seja, unicamente os meios próprios de si mesma.
Assim, cada arte é uma unidade fechada em si mesma. Cada arte tem uma vida própria. É um reino por si só.
Por isso, os meios de diferentes artes são totalmente distintos exteriormente.
Som, cor, palavra...
E no último e mais recôndito fundo, estes meios são exatamente iguais: a meta final anula as diferenças exteriores e descobre a identidade interna.
Esta última meta (entendimento) se logra na alma humana através de delicadíssimas vibrações dela mesma. Porém estas delicadíssimas vibrações, que são idênticas na meta final, guardam, em si, diferentes movimentos internos que as diferenciam entre si.

Portanto, gostaria de ressaltar, parafraseando Kandinsky, que cada indivíduo deve ter o direito de desenvolver plenamente a sua própria linguagem, ou seja, ser unicamente o seu próprio meio.

Assim, cada comunidade é uma unidade fechada em si mesma. Cada comunidade tem uma vida própria. É um reino por si só.

Por isso, os diferentes meios e as diferentes comunidades tornam-se distintas exteriormente.
Todos os homens, o meio, a cultura, as artes, as ciências, a tecnologia...

E no último e mais recôndito veio, a cultura e as artes, as ciências, a educação e a saúde são meios exatamente iguais: a meta final anula as suas diferenças exteriores e revela a identidade das partes, confluindo para um todo.

Esta última meta, ou seja, o entendimento, logra-se na comunidade por meio de delicadíssimas vibrações dela mesma. Porém, estas delicadíssimas vibrações, idênticas na meta final, guardam em si distintos movimentos internos que as diferenciam umas das outras.

Assim, a nação e as cidades vibrarão no contexto do mundo, na mesma proporção em que seus indivíduos e respectivas áreas vibrarem entre si. As vibrações e o seu alcance serão maiores se o caminho, do direito às artes e das artes ao direito , estiver preservado no âmago da sociedade, legando ao homem seu direito mais pleno de "ser e agir" integralmente, percebendo e transformando a realidade na qual ele vive e atua, procurando, cada vez mais, a ação consciente, diante do contraponto permanente de todas as formas de vida e conhecimento que nos cercam e que o "espaço" traduz, de indivíduo a indivíduo, de comunidade a comunidade, de cidade a cidade, de nação a nação, em escala planetária, de modo incessante e permanentemente mutável.
[1] William Shakespeare. O mercador de Veneza. Ato V, cena I: Lourenço, 1596-97.
[2] Nelson Aguilar. Excertos da entrevista sobre a mostra "Brasil+500", concedida à revista E - SESC de São Paulo- agosto de 2000.
[3] Mario Pedrosa. "Arte, necessidade vital". In: Arantes, Otília (org.). Forma e Percepção Estética. São Paulo: Edusp, 1996, vol. II, p. 46.
[4] Ezra Pound. Abc da Literatura (1934). Org. e apresentação Augusto de Campos. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1990.
[5] Walt Whitman. Leaves of Grass. A partir da tradução "Folhas das Folhas da Relva", Geir de Campos. São Paulo: Brasiliense, 1983.
[6] Piet Mondrian. Excerto do diálogo "Realidade Natural e Abstrata", escrito em 1919-20. Versão para a Língua Portuguesa (não publicada), traduzida por H. J. Koellreutter e Saulo di Tarso, 1999.
[7] Wassily Kandinsky. Excerto do texto publicado como introdução da obra teatral Der Gelbe Klang (A nota amarela, 1911-12) na revista Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), Munique, 1912.

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